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sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Dá para explicar?


Acorda pensando na sua vida; como se isto fosse uma grande novidade! Ela vive pensando na sua vida e na de tantos quantos a rodeiam. Reza, pede a Deus por todos, e, num gesto, leva à mão ao crucifixo que carrega no pescoço: é um crucifixo de ouro cravejado com pequenas pedras verdes(verdadeiras), que lhe foi dado de presente e, desde o dia em que o ganhou, e lá se vão anos, está ali no pescoço, só sai dele quando a sua dona vai fazer ultrassonografias ou outro qualquer exame, ou ainda quando vai para a acupuntura. É um companheiro e tanto, pois, mesmo com a beleza da peça, que é mesmo uma joia, a sua representação é o que mais vale, por isso mesmo o gesto de levar a mão ao pescoço e pedir a ajuda tão necessária.
Quem lhe deu esta joia, também lhe deu a pulseira de ouro que carrega no braço esquerdo junto ao relógio, que também, por incrível que possa parecer, é um dos muitos presentes que recebeu da mesma pessoa, O seu pensamento já não está mais nos outros, e sim nela, porque num gesto quase que automático passa uma perna na outra e sente a tornozeleira, uma correntinha de ouro com um trevo e uma figa, que, por mais estranho que possa parecer, também lhe foi dado pela mesma pessoa.
Sorri e passa a mão pelas orelhas, e nota que também ali a presença da pessoa se faz presente, está com um brinco de ouro com  pedras azuis, que também lhe foi dado pelo mesmo presenteador.
Pensa: Como alguém pode esquecer outra carregando em si tantas lembranças; quanto pior quando, algumas delas, a exemplo da tornozeleira, lhe foram oferecidas após, ela e o presenteador, estarem separados, e ela recebeu,  simplesmente, porque ele soube que a antiga fora perdida, que, por acaso, também lhe foi presenteada pela mesma pessoa.
Lágrimas escorrem pelo canto do olho. Sim, por que tudo tinha de acontecer? Para que uma pessoa que faz questão de estar tão presente causou uma tão grande ausência, um vazio enorme num peito aberto ao amor.
Que estranha maneira de se fazer presente é esta, quase se tatuando no corpo de outrem! Que estranha maneira é esta de alguém sofrer por outrem deixando que a sua presença se encrustre em si desta maneira.
Não tira nunca as coisas, parece que tem medo de perder este contato, de retirar uma tatuagem que lhe deixará marcas feias, que sempre lhe lembrarão do que estava tatuado ali, quanto pior, se as tatuagens eram perfeitas, coloridas e lindas, as marcas da sua retirada serão feias, vão parecer queimaduras na pele, vão mesmo é deixar marcas indeléveis perenizando uma ausência presente.
Tenta parar de pensar nisto, mas é impossível. Tenta lembrar-se da sua casa, e aí nota que isto não vai afastar o pensamento e nem a presença de quem quer esquecer.  A sua casa está tão cheia de lembranças quanto o seu próprio corpo.  Na sua sala a televisão que lhe traz o mundo para dentro dela lhe foi presenteada pela pessoa. O aparelho de som onde ouve as suas músicas preferidas, que lhe fazem sonhar, também lhe foi oferecido pela mesma pessoa. Os próprios discos, uma grande maioria deles, também são pequenos mimos, enormes nos seus efeitos, quando lhe levam a recordar momentos tão felizes, mas que se foram, embora fiquem ali perenizados por vontade de ambos, talvez inconscientemente por ele, Tony Bennet, Bossa Lounge, Al Jarrou, Emilio Santiago, Andrea Boticceli, Zeca Pagodinho, Djavan, Gloria Stefan, tantos, tantos outros, e tantas recordações.
Pois é, o som que toma conta do coração e da casa entra por todos os seus poros, ela se arrepia só de pensar nisto e de lembrar que, quando ouve as músicas, na sua grande maioria, quando está só, o faz  deitada numa rede que lhe foi trazida pela mesma pessoa, em alguma das muitas viagens que faz ao nordeste.  Todas as redes da casa. É incrível! Eela pensa: são mais de cinco, e todas, sem exceção, chegaram a casa através dele.
Desiste de lembrar-se de mais coisas, mas a sua casa não tem somente sala, e ela se lembra das taças de vinho, ali a hegemonia dele é mesmo gritante, tudo ali lhe foi trazido por ele, que também é quem, quando aparece, leva o conteúdo das taças, mas não é só isto que, na cozinha, acusa a sua presença que se impõe de todas as maneiras. Os pratos brancos que substituíram os que foram quebrados, pratos iguais aos que tinham enquanto juntos  e moravam na mesma casa. Não só os pratos, há também o abridor de garrafas, as facas grandes, o facão, os belos pratos de servir refeições. Dentro do freezer esta o bacalhau especial trazido do mercado municipal de São Paulo. Na despensa o palmito, ele sabe que ela gosta e faz estes mimos.
Quer não pensar, quer não fazer mais nenhuma associação da ausência presente que se impõe todos os dias na sua vida, mas é impossível. Agora, mais de que nunca, ele vai estar presente, mesmo quando ela não estiver em casa, quando sair dela para procurar alguma diversão, procurar deixar de ficar tão doída com tantas lembranças e com tanta presença, Sabe que não adiantará nada a fuga, pois o que vai proporcionar este distanciamento da casa onde a presença é tão grande é exatamente um carro que, se não um presente, é uma doação condicionada, uma espécie de usufruto de bem móvel, porque é dele.
Não consegue mesmo entender, não sabe por que uma pessoa pode, faz questão, de se fazer tão presente e, ao mesmo tempo, ser uma ausência tão grande que leva a outra a duvidar que isto exista ou existiu mesmo.  Não! Isto é mesmo real, a pulseira, o crucifixo, a tornozeleira, o brinco, as tatuagens da alma, tudo isto é muito real, muito presente.
Não sabe o que fazer; pega no crucifixo e solicita a ajuda de Deus, e, neste momento,percebe: ironicamente, está vestida com um pijama que era dele!!!!!!!! Tem de gargalhar mesmo. É o que faz no seu solitário quarto do outro lado do Atlântico.

domingo, 18 de abril de 2010

Serviço de alto falante

Ficava ansiosa; quando a tarde ia chegando já se preparava. Tomava banho, vestia um a roupinha fresca e ficava aguardando.
De repente um barulho! sim porque aquilo era um barulho, não era um som. Uma voz fanhosa começava, entre ruídos estranhos a falar: “bõa tarde senhoras e senhores ~~ desta bela cidade de Camaçari, estamos começ~~ando mais uma edição”. Ruídos estranhos, parecia que alguém estava arranhando algum metal em outro, descargas, sons imprecisos, zoadas diversas. De repente o som fanhoso começava a ser identificado. Era abertura oficial: “Qual Cisne branco que em noite de lua, vai navegando sobre o lago azul, o meu navio também flutua, nos verdes mares de Norte a Sul, linda galera[...]”.Não entendo até hoje porque um serviço de auto falante de uma pequena cidade do interior tinha de abrir os serviços com o hino da Marinha, talvez o locutor tivesse servido na marinha, ou, frustado, tivesse sonhado em ser marinheiro, enfim, não interessa, o que interessa é que, decorou o hino da Marinha do Brasil, pois todos os dias, às 4:00 horas da tarde, a vida lhe dava alguma esperança de melhora exatamente por ouvir este hino. Acho que viajava junto com a Marinha do Brasil nos versos daquele ufanismo